Na escuridão de São Paulo,

Na realidade não sei onde estou

E assim, me calo,

Sem saber para onde vou

Doses de tequila,

Garrafas no chão

Esperando na fila,

Dois copos na mão

Marcas do cigarro queimado

Aparecem na pele fria

Um sofrimento calado

Enquanto eu a via

Sorrindo ao longe

Mas não para mim

Me vê, e foge

Esse é o meu fim

Acendo o baseado

Aquele que era dela

Um trago pesado

E morro à imagem singela

Daquele belo sorriso

Que um dia foi meu

E agora tudo que eu preciso

É relembrar quem sou eu.


João só queria parar de fumar.

Levantou da cama, seis horas da manhã, e lá se foi o primeiro cigarro, sequer escovou os dentes.
A refeição da manhã? Uma xícara de café e dois cigarros antes de ir para a faculdade.
Parado no ponto de ônibus, João, enquanto brinca com os dedos e o isqueiro dentro do seu bolso, coloca mais um cigarro em sua boca, pensando se deve ou não acendê-lo.
Acende, é claro. Não consegue ficar dois segundos parado sem o movimento de segurar o cigarro nos dedos e levá-lo até sua boca.
Tragar.

Jamais esquecerá seu primeiro trago.
15 anos de idade. O maço de Marlboro vermelho de sua tia jogado em cima da mesa de jantar, sussurrava seu nome.
Até hoje - 4 anos depois - se pergunta o que o levou a acender aquele primeiro cigarro. Seria a curiosidade? Ou talvez a rebeldia da adolescência.
De qualquer maneira, assim foi, e um cigarro, se tornou um maço por dia, nos quatro anos seguintes.

João acorda de seus devaneios, o ônibus chegou. Rapidamente apagou seu cigarro, na metade, mas não o jogou fora, guardou de volta no maço, afinal, custa dinheiro, não?
Quem se importa com o câncer que possivelmente, eventualmente, chegará? Não. João não.

João quer parar de fumar, entretanto, ainda guarda seus cigarros para mais tarde.

Chegou à faculdade, e dirigiu-se à sala de aula, em sua mesa de costume. A aula começou, junto com inquietação de suas pernas. Movimentando-se freneticamente, sem parar. João já não tinha o controle sobre elas fazia tempo. Maldita ansiedade. “Só quero um cigarro!”, resmungou para si mesmo, “Droga!” reclamou mais uma vez ao perceber-se vencido pelo vício.

Hoje, sequer lembra-se do motivo por que fuma, só acende, assim, no automático.

No intervalo das aulas, ele senta-se na esquina da faculdade, sozinho. Acende um baseado.
Só cigarro? Quem disse? João fuma de tudo. A vida é mais fácil assim.

Nunca irá se esquecer do seu primeiro baseado. A fumaça que entalava em sua garganta o fazia sentir-se um tanto eufórico, talvez um pouco engraçado. Feliz? Ninguém saberia dizer, nem mesmo João.
Muito menos João.
Ele jamais soubera decifrar seus sentimentos, e embora teria adorado aquela sensação, não saberia o que esperar a partir dali.

Um baseado por mês.
Quando seus amigos queriam relaxar, levavam a maconha para a casa de João, e todos fumavam, espaireciam.
Mas vida não foi feita para ser fácil, não é mesmo?
Seus amigos seguiram seus respectivos rumos, eventualmente, e João via-se cada vez mais encurralado.
Seu psiquiatra disse que é borderline, talvez transtorno bipolar… A famosa depressão.
O baseado que era esporádico, tornou-se diário, usual.
“De que adianta tomar os remédios, se eu não sinto nada?” e fumava.

Na última aula do dia, João viu-se aflito, ansioso, pelo momento em que pudesse acender o cigarro em uma mão, e o baseado na outra.
Saiu da sala, dirigiu-se à entrada da faculdade. Deu o primeiro trago, o segundo… Fechou os olhos, sorriu.


João só queria parar de fumar, mas a vida não ajuda.

quero tanto
que não quero mais
não aguento o enquanto,
a insegurança aqui faz
sua morada infeliz
tirando a minha paz
e aquilo que eu nunca fiz
caminha para o jamais
não tenho capacidade
de fazer o que quero
e nessa cidade
só há o desespero
e tenho muito medo
de me deixar sentir
muitas vezes pensando
será que devo existir?
fecho um olho
fecho a mim
na parede o espelho
mostra um negro sem fim
um autorretrato
em busca incessante
de um autoconhecimento
para essa mente inconstante
devo me abrir?
a pergunta grita
consigo sair?
a garganta solta
mais um som falhando
nessa medíocre vida
19 anos procurando
será que há saída?


(Source: weheartit.com)






(Source: sempeternal)